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O Partido conseguirá vencer a cláusula de barreiras ?
-Acredito que sim. O Partido Verde é o partido que mais cresceu nas últimas eleições. Nós saímos de cinco prefeituras para 56 prefeituras, inclusive, duas delas com mais de 200 mil eleitores: Volta Redonda e Mauá. Temos hoje sete deputados federais. Pela primeira vez na história do partido tivemos uma bancada na Câmara Federal. Temos o programa de televisão dado pelo TRE. Antes, nós tínhamos dois minutos por ano. Hoje são mais de duas horas em programa nacional. Temos acesso ao fundo partidário e, muito mais importante do que tudo isso, temos um programa claro que vai ao encontro das aspirações do povo brasileiro que é justamente defendermos o desenvolvimento sustentável, incorporarmos ao processo de desenvolvimento a variante ambiental e a variante social, irmos ao encontro daquilo que o Brasil sente necessidade: preservar os nossos biomas, mas no sentido de que eles possam prestar serviços ambientais. Sabemos que os biomas prestam serviços ambientais. A Mata Atlântica, por exemplo, quase toda ela foi destruída. O bioma é responsável pelo fornecimento de água da cidade de São Paulo, que está correndo o risco de ter racionamento. Isso tudo ocorre porque a mata quase não existe mais: os rios estão poluídos, as matas ciliares derrubadas e os afluentes dos principais rios da bacia estão comprometidos. Isso faz com que encareça os custos, não só para manter a qualidade da água, mas a qualidade do ar. Então, o que nós do Partido Verde desejamos é um desenvolvimento que, ao contrário do que vem historicamente ocorrendo, teve um alto custo ambiental. A Mata Atlântica praticamente acabou; o Cerrado, em sua grande parte está destruído, a Caatinga também, e na Amazônia, infelizmente, tivemos este índice assustador de desmatamento (6.2% no período 2003/2004). Esse processo de desenvolvimento teve um alto custo ambiental e um baixíssimo retorno social. Se esse processo tivesse pelo menos garantido um retorno social, se fossemos um país socialmente rico, talvez ai tivesse valido a pena, mas não aconteceu nada disso. Essa degradação ambiental serviu para a concentração de riquezas e para um desperdício das nossa potencialidades ambientais.
A saída da base de apoio ao governo Lula nesse momento foi positiva em termos políticos?
- Nós não saímos para entrar na oposição. Saímos para ficarmos independentes. Na pratica, nós já vínhamos fazendo isso há algum tempo, porque o partido sempre teve uma postura muito firme e unânime em relação a liberação dos transgênicos, por exemplo. Como não existia a exigência de estudos ambientais de impacto ambiental e sem cumprir o princípio da precaução, na lei Biossegurança fomos contra a dar super poderes a CTNbio. Da forma como a lei saiu, a CTNbio tem mais poderes, conforme a lei saiu, do que os próprios ministérios. A transposição do rio São Francisco também está sendo conduzida sem uma discussão mais apropriada com toda a sociedade. Era fundamental que tivesse sido feita a revitalização de toda a bacia.É impossível se pensar numa obra de engenharia, de bilhões de reais, milhões de dólares ao mesmo tempo em que municípios do São Francisco ainda jogam esgoto sem tratamento no rio e não têm uma destinação correta do seu lixo.
O Partido Verde é contra a transposição do São Francisco?
O partido não é contra a transposição do São Francisco, mas tal como ela está posta é contra. Não somos contra que se leve água para o semi-árido nordestino, mas há outras opções: o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), que é o órgão Conselho Superior do Meio Ambiente, há muito tempo, aprovou resolução deixando claro que primeiro tem que se verificar alternativas para atender o semi-árido, o que não foi feito. Hoje cientistas dizem que há alternativas mais baratas para facilitar e melhorar as condições de vida do semi-árido. Opção para dar prioridade a uma grande obra de engenharia, enquanto que a ênfase deveria estar sendo dada aos municípios que formam a bacia do São Francisco. Muitos desses municípios não têm esgoto, não têm água e não têm plano diretor. Com isso, as cabeceiras das nascentes são desmatadas, com também as matas ciliares, causando o assoreamento dos rios e fazendo com que diminua a água, e provocando inundações. Os rios maltratados passam a exigir o tratamento da água. Tudo se transforma em um ciclo perverso. O licenciamento prévio da obra é contraditório. Não se trata de um licenciamento efetivo e não foram cumpridas duas coisas fundamentais: primeiro, não se verificou se programas de cisternas seriam mais apropriados para o semi árido do que uma obra dessa. Segundo, não se pode falar em transposição de bacias da água do rio São Francisco enquanto nós não revitalizarmos o rio. Costumo dizer que é a mesma coisa que você fazer uma transfusão de sangue de um anêmico: na verdade acaba morrendo o paciente e quem está dando o sangue.
Na reunião da executiva do PV em Belo Horizonte um dos temas foram as eleições de 2006. O senhor está sendo falado, citado para lançado pelo partido para Presidente da República. O senhor confirma isso?
- O Partido está discutindo ainda se vamos lançar candidato a presidente da República e o meu nome foi levantado pelos companheiros o que me deixou muito vaidoso, mas nós estamos ainda há léguas de distância de decidirmos sobre essa questão. Primeiro, nós vamos ver como vai ficar a legislação eleitoral; se a verticalização passa, se a verticalização não passa. Precisamos verificar quem são os candidatos e quais são as propostas que vão ser postas. O Partido Verde tem quadros para poder lançar candidatos a presidente, governadores dos maiores estados do Brasil e, com isso, nós cumprimos a claúsula de barreira que é justamente eleger 5% dos votos nacional.
Com o sr. vê a situação do desmatamento na Amazônia que teve mais de 26 mil quilômetros quadrados devastados. A ministra Marina critica a política ambiental do governo o senhor concorda com isso?
A política ambiental do governo é muito ruim. O que tem se visto é que a ministra Marina tem sido uma voz isolada, escanteada dentro do governo federal. Quando a ministra Marina foi escolhida falou na famosa transversalidade, isto é o meio ambiente deve permear todos as políticas públicas e não ficar restrita ao Ministério. Não interessa a nós ambientalistas que o Ministério do Meio Ambiente seja uma ONG de luxo, interessa, sim, que ela seja uma área que possa influenciar nas políticas públicas. Quando eu fui ministro há quatro anos, nós estávamos decididamente caminhando para isso. O meio o meio ambiente já fazia parte do corpo das grandes decisões nacionais. Infelizmente, nós não temos visto no atual governo uma continuidade dessas políticas. Houve uma mudança de visão. Me parece que a preocupação excessiva com o crescimento faz com que se deixe de lado aquilo que deva acompanhar o crescimento. Ao PV, não interessa um crescimento a qualquer custo. Eu, por exemplo, sou do Maranhão, onde existe o município de Imperatriz, localizada no chamado Arco do desflorestamento. Quando abriram a Belém-Brasília, naquela região chegaram a existir mais de mil madeireiras. Era uma região próspera que gerava empregos, trabalho que atraiu gente de todos os lugares. Muitos mineiros que moram lá foram para lá nessa época. E o que aconteceu? Quinze anos depois, nós não temos nem 10 madeireiras, porque a matéria-prima da indústria que era a madeira, a floresta, se acabou. Se nós tivéssemos naquela época pensado no desenvolvimento sustentável, feito manejo da floresta, hoje essa atividade econômica ainda estaria lá, rendendo dinheiro e promovendo a ascensão social na região.
O senhor acredita que o governo perdeu o controle sobre a Amazônia?
Acho que sim. Acredito que os mecanismos de comando e controle não estão sendo suficientes mais para diminuir o ritmo do desmatamento e é preciso, mais do que nunca, que o governo decrete uma moratória no desmatamento da Amazônia. Essa é uma proposta do PV que já foi lida na Câmara e que cada vez mais se faz necessária. A SBPC também aprova a moratória. O que nós queremos é um freio de arrumação. Não se pode mais fazer o corte raso na Amazônia até que se faça o zoneamento ecológico econômico até que se faça uma clarificação fundiária para saber quais são as terras públicas; até que se fortaleça os órgãos ambientais para que esses órgãos possam fiscalizar adequadamente, com estrutura para fiscalizar. Mais que nunca é preciso coragem do governo para dizer que o desmatamento da Amazônia fica proibido. Enquanto isso vamos chamar todo mundo, chamar os madeireiros, os pequenos proprietários, chamar as comunidades indígenas, chamar aqueles que já moram há muitos nos lá, as comunidades tradicionais, chamar os governos do estado, dos municípios e discutirmos o que nós queremos para Amazônia. Será que se quer para Amazônia, o que se quis para o Brasil ao longo desses anos? Que a Amazônia se transforme em pasto, em monocultura de soja, ou se queremos um modelo diferenciado que se aproprie de nossas riquezas ambientais, ou seja, da nossa biodiverssidade, da nossa biogenética. Quantas riquezas, quantas curas não estão escondidas na Amazônia , e quando a gente destrói. Estamos destruindo as possibilidades antes de aprofundarmos os conhecimentos sobre esse bioma. Hoje se conhece 70% do que existe em variedade genética na região. A Amazônia é a maior fornecedora de água potável do mundo e ajuda a diminuir a temperatura do mundo, além de influenciar no regime de chuvas de toda a América do Sul.
A soberania da Amazônia corre risco?
- Eu tenho dito que o que afeta a nossa soberania na Amazônia não é a criação de reservas indígenas ou de parques, e sim, o fato de o mundo sentir que o nosso país não está cuidando bem desse imenso patrimônio. Isso começa a acontecer. Estão voltando a falar na internacionalização da Amazônia. Volta-se a dizer que a Amazônia deve ser vista como de interesse público internacional, porque o que está se vendo é que o Brasil não está tendo condições de cuidar da Amazônia.
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